O JARDINEIRO
Compartilho por aqui também o conto romanesco que redigi especialmente para a quinta edição da Revista. Espero que gostem.
O JARDINEIRO
Era uma típica manhã de primavera, de céu aberto e clima confortável, o passeio contemplativo convidava e era justamente este o maior deleite matinal de seu Eugênio. No alto de sua bem sucedida maturidade, o septuagenário que mantinha o mesmo enrijecimento de vértebras de sua quinta década, gozava religiosamente duma brisa ensolarada e um instante de silêncio no aprazível jardim de sua casa. Era ele o próprio jardineiro. Herdara tardiamente de sua jaz e tão bem quista esposa o gosto pelas plantas.
Sua viuvez quase que debutava, mas a saudade já não lhe fazia moléstia. O cultivo das flores, ofício que durante o casamento pouco lhe atraia, hoje acudia o velho de suas urgências ociosas. Era o hábito que regava-lhe os mais célebres momentos de plenitude.
O estômago quase badalava meio dia quando Marco Aurélio, o neto mais novo de seu Eugênio, apareceu. O moço passeava vagaroso, triste e cabisbaixo, por um dos caminhos sombreados que as linhas do sol recortavam em profusão. O avô podia ler o neto que desandava com as mãos envelopadas no paletó. Este fitava uma coisa no ar, uma coisa invisível que podia ser um problema qualquer. Cousa que não se fazia mistério para aquela barba branca, tantas vezes vergada aos atritos da paixão.
Eugênio: Sente-se aqui meu querido, namoremos um pouco. Estudemos juntos esta carta de aflições que trazes escrita no pálido papel de seu semblante.
Marco Aurélio: Vovô, venho mais uma vez em busca dos bons conselhos desse livro importante que existe na estante de nossa família, a quem os demais só têm prestado negligencia. Sempre fui muito bem servido quando tratávamos de negócios, pois que agora lhe trago a difícil missiva de virarmos um trago ardente. Falaremos de amor.
O velho deita sua mão enrugada com vigoroso orgulho sobre a lapela daquele rapaz. Respira com sentimento e mira seu juízo com incontido respeito ao mais jovem de sua estirpe. Volvendo o gargalho na direção do sol, fechou os olhos e rogou em silêncio para que fossem por Ele inspirados os remédios para as queixas que se seguiriam.
Eugênio: Meu caro, tua chegada é para mim sempre retumbante de alegria. A velhice, cenário timidamente escancarado ao mundo, sabe ser sorrateira! Não existe mais triste e derradeira surpresa aderente à condição humana. É quando obstam os prazeres da carne que o homem se acha mais inclinado à filosofia. Só que na minha idade, tal surto dialético costuma enclausurar-se numa existência solitária. Quando me faz visita, sinto-me na utilidade daquelas rosas maduras que se vê ao longe, que já abandonam suas pétalas, como que derrubando conselhos, espalhando o que já está morto para o que é vivo crescer. Então, engula a amarga cana dessa angústia e disso faça coragem para dizer do que te afliges.
Marco Aurélio: Encontro-me em dúvida quanto aos rumos que tomo em meu relacionamento com Judite. Temos brigado muito ultimamente. Ela que nunca foi de cobranças, vem se saindo a mais caprichosa que tenho por vista. Temo que se ache pronta ao matrimônio. Pois sei que desta feita está certa de que eu a retribua na mesma certeza. E eu que a amo, ando enigmaticamente esquivo dessa reciprocidade. Condeno-me por fazer planos sozinho, agarrado às dúvidas nefastas com as quais me deito todas as noites. Afinal, já nos graduamos, iniciamos carreiras profícuas e comungamos duma caminhada na qual percorre-se mais de meia década. Sou reclamante do nada, não posso advogar qualquer queixa relevante que macule a delicia de seus modos. Meu coração está em pedaços. Tenho evitado uma vitrine de alianças como um pobre diabo que corre da cruz. Oh dúvida sem nome essa que me faz sucumbir! Venho abotoando em meu peito todos os dias essa indigesta ansiedade, receoso de que possa perigar os mais certos planos que sempre tive.
Eugênio: Ah, que dizer da tua bela Judite. Com incerta ressalva às lembranças que tenho de sua avó em nossa juventude, posso assegurar que desconheço mais linda flor. O rosto da moça é como o sol, não se pode olhar por muito tempo. Jamais me esqueço do casto prazer dos seus tios e primos ao vela chegando para ser anunciada, aqui mesmo e a priori, como colega tua da faculdade. Era um botão impúbere, tímido e frágil. Mas que desde logo te ladeava, tão tua e por isso orgulhosa, como que fosse do flanco esquerdo do peito tua própria costela. Por isso, deixa que te alerte para que não abdiques duma preciosidade dessas. Pode ser que a abandone na ânsia de se encontrar, mas longe dela tu serás o mesmo, ou mesmo ao lado doutra, o que já é não mudará. A presença que se busca não é a do outro, mas sim a do significado. Se te queres outro, faças em ti a mudança, não a queira naquela que amas. Não receie dos caprichos, estes não passam de flores próprias da idade, o tempo as secará de todo. Se a ama de veras, quaisquer que forem seus defeitos, casa-te. Não conheço a história de todos os casamentos que se têm feito debaixo do sol. Mas são os amantes sensivelmente cismados que se prestam à uma qualidade superior de sentimento. Corações insignes não veraneiam o ano todo. O pugilato que terás ante as tentações que atentam depravar seus votos, desafiar-te-á na mesma proporção com que te fazem as cobranças que elevam a uma carreira bem sucedida. E desconheço o astronômico sucesso profissional que possa justificar um fracasso na família. Meu neto adorado, a repreenda que te faço é de que no amor tenha a coragem de não se fazer plateia. Os grandes amores sempre estiveram no palco, onde choram-se os mares e com nada menos que o infinito se contentam. A peça do amor é um eterno cair de joelhos e levantar vacilante. Para até que se encontre vergado às flores fúnebres, regando a partida de sua amada alegria, arrebatada pela menina morte – Oh perversa ladra dos livros deste mundo!
A essa altura o coração do velho umedeceu-se duma chorosa lembrança. Estalando os joelhos pôs-se de pé, com a cabeça para o chão pendida. Encaminhou-se para entregar aos pés da mais bela orquídea uma lágrima fugidiça, que rebelara-se com o rememorar daquela melhor metade sua, há tanto extraviada. Nisso o neto também se põem, com o alívio do viajante que desampara sua pesada mochila de preocupações, mas sem prejuízo de compaixão para com aquela sapiente alma entristecida. Destilando um sorriso de moleque, balbuciou:
Marco Aurélio: Vovô, és mesmo um bêbado eloquente ao se embriagar dessa nossa garrafa! Tanto que, por ter contigo, vem latejar em minha mente uma ressaca resoluta. Saio daqui para investir em poucas gramas de ouro. Certo de fazer fortuna confiando minha previdência ao mais valioso de todos os sentimentos. Mas antes que debande com minha euforia, tenho por hoje uma derradeira pergunta ao ébrio habitual dessa emanação agradável de aromas e perfumes. Não sei por que até hoje nunca te fiz questão, mas donde vem todo esse ânimo afetivo pelo cultivo delas?
Eugênio: Antes do fatídico acidente que plantou sua avó tetraplégica numa cadeira de rodas, era ela florista. As flores foram seu amor primeiro, pelo qual suspirava desde menina. Dizia que eram ornamentos essenciais, que falavam de amor numa linguagem apenas pelo coração compreendida. Tive comigo inarredável fardo de tristeza ao vela partir em tão insofrível barca. As insônias com as quais me casei após seu sepultamento, cozinhavam saborosas recordações que me empanzinavam de desespero. Dessas lembranças soerguidas do luto, consegui resgatar os mais generosos ensaios de riso, os quais regava todas as manhãs, ao longo das duas últimas primaveras que tivemos. Cumplices como nunca, abocanhávamos da mesma colher no desjejum. Percebi que quando trazia flores, sua fisionomia manca de expressão podia desenhar uma linha sequer da mais legítima alegria. Acredito que diante delas, mesmo que por fugazes instantes, surtiam-se milagrosos lapsos em sua grave demência. Ai, foi por isso que me fiz jardineiro.
Ao cabo disso o avô lançara ao longe um honrado sorriso. Para lá onde corria um paletó desabotoado com ânsia de herói. Partia este colhendo flores para enfeitar de amor a sua história. Divorciado do receio dos acúleos do destino. – J.J.J.






